Decapitação põe secularismo novamente em debate na França

Assassinato de professor de história levou muitos franceses, inclusive Macron, a erguerem a voz pelos valores seculares do país. Mas críticos dizem que a defesa a todo custo do laicismo pode estar fomentando divisões.

Em janeiro de 2015, milhões de pessoas tomaram as ruas de Paris e de outras cidades francesas para denunciar os ataques terroristas na redação do Charlie Hebdo. Uma nação indignada erguia lápis coloridos e faixas , em defesa da livre expressão e do secularismo na França.

Cinco anos depois, e após outro ataque terrorista, há uma sensação de déjà-vu. Os protestos de hoje são menores. Mas a indignação é a mesma, após a brutal decapitação do professor de história Samuel Paty, que exibiu charges do profeta Maomé durante uma aula sobre liberdade de expressão.

Os mesmos cartuns que inspiraram os ataques do Charlie Hebdo - e o esfaqueamento de duas pessoas em Paris no mês passado - estão novamente testando os limites do secularismo francês – a "laïcité”.

Opiniões conflitantes sobre a fé e a liberdade de expressão estão em jogo. E alimentando as tensões, dizem especialistas, um sentimento mais amplo de estigmatização e privação de direitos sentido por muitos franceses muçulmanos, a maior comunidade islâmica da Europa Ocidental.

Agora, como o presidente Emmanuel Macron prometeu uma guerra total contra o islamismo radical, críticos dizem que a forte defesa do laicismo só está exacerbando o problema. Em vez de proporcionar um espaço neutro para o caldeirão de crenças do país, como se pretende, o secularismo - consagrado em uma lei de 1905 que separa a Igreja do Estado - tornou-se um ponto de ebulição. 

"Há uma cultura política que tem problemas com o islã", diz o sociólogo Farhad Khosrokhavar, especialista em islamismo radical. "E esta cultura política, a laïcité, é um problema".


O secularismo como religião civil

As autoridades insistem que não há desarmonia entre o islamismo moderado e os valores franceses. Ao invés disso, criticam o comunitarismo, um termo usado na França para sugerir uma visão de futuro da sociedade que muitas vezes está, embora não exclusivamente, ligada ao islamismo conservador. Mais recentemente, Macron substituiu o comunitarismo pelo separatismo em seu dicionário.

Alguns observadores dizem que a mesma visão interna ajudou a alimentar o assassinato do professor. Uma campanha de ódio teria sido lançada por um pai descontente de um aluno. Essa campanha, dizem os investigadores, motivou Abdoullakh Anzorov, um refugiado tchetcheno de 18 anos, a matar Paty. 

Em sua luta contra o comunitarismo ao longo dos anos, o governo francês introduziu proibições aos símbolos religiosos nas escolas e prédios públicos e baniu os trajes de banho muçulmanos de corpo inteiro, os burquínis, nas piscinas e praias públicas.

Em setembro, alguns legisladores, inclusive do próprio partido de Macron, abandonaram uma sessão da Assembleia Nacional durante um discurso de uma líder estudantil muçulmana - embora ela não tivesse violado nenhuma lei com o seu hijab. 

"A laïcité era uma forma de administrar a relação entre governo e sociedade", diz Khosrokhavar. "Mas tornou-se uma espécie de religião civil, com seus códigos, suas prescrições".

Ao prestar homenagem a Paty em um memorial nacional em Paris na quarta-feira, Macron ofereceu uma defesa emocional dos valores seculares da França. Ele disse que eles proporcionaram o espaço para o pensamento livre e crítico, e até mesmo o direito de fazer piada com uma religião.

"Não desistiremos das charges", prometeu o presidente na cerimônia no pátio da Sorbonne.

O governo Macron respondeu ao assassinato de Paty com dezenas de batidas contra redes islamistas suspeitas no início desta semana, prometeu expulsar estrangeiros radicalizados e dissolver organizações com laços extremistas. Ele também planeja apresentar uma lei no início de dezembro para combater o separatismo, com o extremismo islâmico em sua mira.


Fonte:DW

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